Canção
Cecília Meireles: No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam...
Que presente te dar
Affonso Romano de Sant'ana: Que presente te darei, eu que tanto quero e
pouco dou, porque mesquinho, egoísta,
distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular?
Deveria desatar inúmeros presentes ao pé da árvore,
entreabrindo jóias, tecidos, requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te o que não posso buscar lá fora, mas o que em mim está fechado...
Coração de Menina-Mulher
Amor: Eu Te Amo
Só que não quero
Eu não posso,
Mas o meu coração te persegue
Sei que não me amas,
E sei que não me quer
Mas o que eu faço
Com meu coração de Pequena Mulher?
Será que tem cura?
Médico, remédio?
Eu peço, ajuda essa alma impura
Que precisa de ajuda!
Não saberia me ajudar
Porque também não sabe...
A Paixão
Affonso Romano de Sant'ana: Feito um vendaval, Paixão é a alucinação amorosa.
E os apaixonados são e duas espécies: os generosos, que se dão inteiramente, se jogando nas mãos do outro, e os possessivos, que querem que o outro se incorpore a eles convertidos
em sombra viva.
Paixão, por isto, é arma de dois gumes.
E corta.
E...
Doce Mistério
Amor: Corri em busca de descobertas,
Descobertas que desvendam mistérios,
Mistérios sagrados do amor.
Tive sede e fome nessa corrida
Mas agüentei...
Continuei a correr.
Sabia que valia a pena,
De que essas descobertas me mostrariam
Um novo mundo,
Um mundo de sonhos.
Enfim,
Cheguei ao final dessa corrida
E lá estava o mais doce mistério,
De que eu estava frente a frente com minha...
Meu Quintana
Manuel Bandeira: Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!
Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.
São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.
São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.
São para dizer em bares
Como em mansões...