Poema de Affonso Romano de Sant'ana
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Na espera do amanhã
Na espera do amanhã
Vou dizer uma coisa banal:
sem o mito do amanhã não existiríamos.
Digo e assumo essa fundamental banalidade.
Não fora o amanhã secaríamos à beira dos caminhos.
O amanhã é que fermenta o hoje, que fermenta o ontem.
Por que migram as aves sobre os oceanos?
Por que os peixes sobem cachoeiras
procurando as nascentes do futuro?
Os animais, aves e insetos ao redor, nos dão lição de aurora.
Ganhei duas crisálidas de borboletas.
Aprendi a ver nesses casulos as asas
que se desenharão em algum céu.
Seguro nas mãos essas formas vivas disfarçadas de vegetal.
Imagino o futuro dessas células.
Mas tal imaginação não é privilégio só meu.
No meu quarto, dependuradas num vaso de samambaia, duas crisálidas me contemplam a mim.
Elas sabem, mais que eu, a que horas duas estupendas
borboletas sairão do útero do tempo para esbaterem contra as vidraças do dia.
A trepadeira no terraço, que avança dois-três centímetros cada jornada, seguindo o fio de náilon do tempo,
me ensina a direção das coisas.
O vento sopra pelas costas de suas folhas e ela navega verde na pilastra como uma caravela reinventando seu concreto mar.
O suicida é o que decretou a morte do amanhã.
O idealista é o viciado que toma o amanhã nas veias, aspira-o, esfrega-o nos olhos e gengivas.
No entanto, dizemos: "está difícil", "a vida está dura",
"assim não é possível", "esse país não tem mais jeito", mas no dia seguinte, amarfanhados, caminhamos junto ao mar
para saudar a aurora.
Sábia é a natureza, nos dizem.
Olhai os lírios do campo, eles passam a vida tecendo e fiando a manhã. E o jardineiro que parece um perverso podador, tão-somente antecipa a floração da vida com suas lâminas de dor.
Em busca do amanhã as cobras perdem sua pele.
Penas caem na muda da plumagem airosa dos airões.
Cães ladram pressentindo o terremoto, que os homens sequer percebem. Os cães, quando uivam para a Lua,
estão à sua maneira saudando o cio das madrugadas.
Em busca do amanhã uma nave passou por Marte e
segue rumo a Urano.
Alguns pré-videntes já estão legislando a constituição do amanhã.
E se acabarem com o amanhã aqui,
ele continuará com outros seres menos ferozes em outras galáxias, mais humanas, talvez.
É assim que Penélope tecia e destecia seu amor nos fios da madrugada esperando Ulisses atracar na enseada.
É assim que Sísifo - o mais otimista dos deuses condenados
- sempre rolava montanha acima a pedra que sempre rolava montanha abaixo.
É assim que Fênix - a fabulosa ave queimada nos desertos da Arábia- renascia das próprias cinzas e cantava transfigurada.
Deus é o renovado amanhã.
O que fazem os amantes pelos bares e praias, junto às árvores de noturnas ruas e nos leitos secretos,
senão cumprir o ritual de crença no amanhã.
E o ano mais uma vez termina.
E estamos comendo e bebendo as horas que faltam e
ansiando por um novo dia.
Também são assim os primitivos,
quando celebram o potlach.
Vão destruindo os objetos, as memórias que ficaram para reinaugurarem um ano novo.
Oh, amanhã!
Os que vão viver te saúdam.
Fonte: Affonso Romano de Sant'Anna
ID: 837
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