Últimos Poemas
Resíduo
Carlos Drummond de Andrade: (...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh...
Surpreendente
Amor: Ora voz agressiva e valente,
Ora doce menino surpreendente,
Confuso e prudente.
Num incidente de repente,
Quase sem fala, ar que não sai,
Mãos suadas, pés gelados, amor sufocado.
Num mundo parado, segredo guardado,
Constragido e preocupado envia contato,
Está atrasado, aparelho desligado. ...
A palavra mágica
Carlos Drummond de Andrade: Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra. ...
É Razoavel pensar nisso
Reflexão: A paciência não é um vitral gracioso para as suas horas de lazer.
É amparo destinado aos obstáculos.
A serenidade não é jardim para os seus dias dourados.
É suprimento de paz para as decepções de seu caminho.
A calma não é harmonioso violino para as suas conversações agradáveis.
É valor substancial para os seus entendimentos...
Namorados
Namoro: Um ao lado do outro, - assim juntinhos,
mãos enlaçadas num enlevo infindo,
- seguem... a imaginar que estão seguindo
o mais suave de todos os caminhos...
Com gravetos de sonho vão construindo
na terra, como no ar os passarinhos,
a esplêndida ilusão de um mundo lindo,
entre beijos, sorrisos e carinhos...
Nada tolda os seus olhos... Nem um...
Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado
Fernando Pessoa: Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte. ...